SALVATERRA DE MAGOS – Ossadas de africano dos séculos XVII e XVIII...

SALVATERRA DE MAGOS – Ossadas de africano dos séculos XVII e XVIII descobertas em concheiro pré-histórico português

Um novo estudo internacional, liderado por investigadores do Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (UNIARQ) e da Universidade de Uppsala (Suécia), e agora publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, revela que as ossadas descobertas num concheiro pré-histórico do Cabeço da Amoreira, em Muge (concelho de Salvaterra de Magos), pertencem a um homem originário da África Ocidental que terá vivido entre os séculos XVII e XVIII. A descoberta deste enterro de um único indivíduo da Idade Moderna com ascendência africana é surpreendente, uma vez que os complexos funerários mesolíticos de Muge são internacionalmente reconhecidos pelas centenas de enterros de caçadoresrecolectores que ali viveram há 8.000 anos. A investigadora arqueóloga Rita Peyroteo Stjerna, da UNIARQ e da Universidade de Uppsala, revela que “este indivíduo deverá ter chegado a Portugal através do tráfico transatlântico de escravos, entre os séculos XVII e XVIII. As nossas análises indicam que este homem terá morrido em Portugal entre 1630 e 1760”. A equipa multidisciplinar de investigação conseguiu perceber, através da sequenciação do genoma a partir de ADN extraído do esqueleto, que este homem viveu vários anos na África Ocidental, tendo uma composição genética que aponta para as populações da Gâmbia e do Senegal. A análise de isótopos estáveis de carbono permitiu descobrir que a dieta deste homem era feita com base em plantas originárias daquelas regiões africanas, à época inexistentes em Portugal, e de bivalves, mariscos de baixo nível trófico. O estudo agora apresentando revela, também, a água que consumia, nomeadamente na zona costeira da actual Mauritânia, Senegal, Gâmbia e Guiné-Bissau.

“Apesar de tanto os restos humanos como os registos históricos estarem incompletos, a intersecção de várias áreas de investigação permitiu desvendar detalhes específicos da vida e morte deste homem, o que é raro. As histórias de vida dos africanos traficados e escravizados durante a Idade Moderna a Europa permanecem muitas vezes abafadas em estudos de larga escala”, explica Luciana Gaspar Simões, investigadora geneticista da Universidade de Uppsala. Esta descoberta revela que as comunidades africanas a viver em Portugal nos séculos XVII e XVIII podem ter desenvolvido estratégias para preservar os seus valores e identidade sociocultural. Procurando manter crenças e tradições específicas, estas populações deslocadas para Portugal poderão ter encontrado no concheiro do Cabeço da Amoreira o local ideal para o enterro, uma vez que “concheiros semelhantes aos de Muge são usados até aos dias de hoje na África Ocidental”, acrescenta Rita Peyroteo Stjerna. A descrição da sepultura, de acordo com os registos de escavação, permite identificar uma camada de areia no fundo, sugerindo-se algum cuidado na preparação do enterro neste local inusitado. Em Portugal, desde a Idade Média até meados do século XIX, era frequente enterrarem-se os mortos em solo sagrado, o que torna esta descoberta ainda mais invulgar.

No contexto deste estudo foram, igualmente, consultados os registos paroquiais de Muge, que descrevem um assassinato registado naquela zona do vale do Tejo: “o homicídio de João, ´moço pardo´, a 1 de novembro de 1676, no Arneiro da Amoreira, nas imediações do concheiro onde foram escavadas as ossadas. No entanto, inconsistências sobre a descrição física da vítima, local de enterramento, e os resultados das nossas análises não permitem com certeza associar este enterramento ao relato dos registos paroquiais”, refere Luciana Gaspar Simões. A conjugação de várias áreas de investigação – arqueologia biomolecular, genética e registos históricos – foi essencial para os resultados agora apresentados. “O trabalho que acabamos de publicar sugere que alguns destes sítios poderão ter sido frequentados durante épocas mais recentes, e é possível que sejam feitas novas descobertas, sobretudo se for possível cruzar os dados da Arqueologia, História, Genética, e Ciências Naturais”, esclarece a investigadora Rita Peyroteo Stjerna.